O economista, o padrinho de casamento, o gestor, o advogado e o presidente: conheça os cinco detidos do caso que fez cair o Governo português

O Ministério Público português invocou o perigo de fuga, entre outros argumentos, para deter o chefe de gabinete de António Costa, Vítor Escária, e o consultor Diogo Lacerda Machado, seu amigo de há décadas. E há ainda outros três visados

investigação sobre duas concessões de lítio, um projecto de hidrogénio de Sines e o projecto do centro de dados de Sines levou o Ministério Público a emitir “mandados de detenção fora de flagrante delito” a uma mão cheia de visados, nomeadamente o chefe de gabinete do primeiro-ministro, o presidente da Câmara Municipal de Sines, dois administradores da Start Campus e um consultor contratado por esta empresa. A Procuradoria-Geral da República justificou as detenções com “os perigos de fuga, de continuação de atividade criminosa, de perturbação do inquérito e de perturbação da ordem e tranquilidade públicas”. Saiba quem são e o que têm feito

Economista, Vítor Escária entrou no gabinete do primeiro-ministro, António Costa, em 2015, como conselheiro económico. (DR)

VÍTOR ESCÁRIA: O CHEFE DE GABINETE

Economista, Vítor Escária entrou no gabinete do primeiro-ministro, António Costa, em 2015, como conselheiro económico. Em 2017 saiu do Governo, depois de ter sido constituído arguido no caso “Galpgate”, por ter aceitado um convite para ir ver a selecção de futebol ao campeonato europeu, em França.

Foi acusado de recebimento indevido de vantagem em 2019, mas no ano seguinte o processo foi arquivado, depois de os arguidos terem aceitado pagar ao Estado uma compensação. Enquanto esteve fora do Governo trabalhou como consultor para a Agência para o Desenvolvimento e Coesão, na área dos fundos europeus. Em 2020 regressou ao Governo, como chefe de gabinete de António Costa.

Nascido em Agosto de 1971 e doutorado em economia em 2004 pela universidade de York, no Reino Unido, Vítor Escária tem ainda no currículo a passagem pelos governos de José Sócrates, tendo sido assessor económico do gabinete do antigo primeiro-ministro entre 2005 e 2011.

Advogado, administrador de várias empresas e homem de confiança de António Costa, Diogo Lacerda Machado é a arma secreta do primeiro-ministro sempre que tem um imbróglio para resolver. (DR)

LACERDA MACHADO: O CONSULTOR E PADRINHO

Diogo Lacerda Machado é amigo de António Costa, que pouco depois de se tornar primeiro-ministro, o chamou para assessorar o dossiê da TAP, revertendo a entrega do controlo da companhia aérea a David Neeleman.

Lacerda Machado é padrinho de casamento de António Costa. Conheceram-se na faculdade, como pode ler neste perfil publicado em 2016 pelo Expresso.

Foi também secretário de Estado da Justiça (quando a pasta tinha António Costa como ministro) no Governo de António Guterres, e entre 2006 e 2012 integrou o Conselho Geral e de Supervisão da EDP. Também passou pela Geocapital (sociedade de Macau ligada a Stanley Ho) e foi administrador da TAP entre 2017 e 2021.
Em 2019 entrou para a administração da Mysticinvest, do empresário Mário Ferreira. E mais recentemente foi contratado como consultor da Start Campus, a empresa que está a desenvolver o centro de dados em Sines que também faz parte da investigação do Ministério Público.

Gestor português Afonso Salema, Presidente executivo da Start Campus. (DR)

AFONSO SALEMA: O GESTOR

O gestor português Afonso Salema (na foto em cima) é desde Janeiro de 2021 presidente executivo da Start Campus, uma empresa controlada pelos fundos Davidson Kempner e Pioneer Point Partners para investir num megacentro de dados em Sines, tirando partido do acesso a energia renovável barata em Portugal. Começou a carreira em 2004 como analista na Deloitte, onde esteve uns meses, a que se seguiu uma curta passagem pelo BES Investimento nesse mesmo ano. De 2004 a 2009 esteve no banco JP Morgan, de 2009 a 2011 foi gestor de projecto na EDP e a partir de 2011 trabalhou em Londres, até 2014 no Bank of America Merrill Lynch, e depois no banco de investimento Jefferies, até 2018. Em meados de 2020 fundou a empresa de consultoria Light Fossil, já de olho nas necessidades de descarbonização da indústria.

A Start Campus está a finalizar a construção do primeiro edifício de uma série de nove a instalar até 2028 em Sines, num terreno próximo da já desativada central a carvão da EDP. Em Março deste ano, Afonso Salema guiou o Expresso numa visita às obras do Start Campus, onde explicava que o custo da energia e a conetividade eram chava para os negócios de dados. “Sines oferece tudo isso”, destacava o gestor, notando que a economia dos dados é “uma oportunidade de ouro para Portugal aproveitar”.

O projecto da Start Campus foi publicamente apresentado em abril de 2021, numa cerimónia em que o primeiro-ministro, António Costa, destacou “o maior investimento estrangeiro das últimas décadas” no país (3,5 mil milhões de euros). “Tenho a confiança de que com este investimento outros virão”, declarou então António Costa.

Rui Oliveira Neves, sócio da Morais Leitão, foi um dos arguidos detidos na investigação que levou à demissão de António Costa. Esta não é a primeira vez que o advogado é implicado em casos judiciais. (DR)

RUI OLIVEIRA NEVES: O ADVOGADO

Rui Oliveira Neves é o administrador da Start Campus com os pelouros jurídico e de sustentabilidade, sendo também sócio (desde 2021) da sociedade de advogados Morais Leitão, depois de oito anos como diretor de assuntos jurídicos da Galp, onde estava desde 2013. Antes desse período na petrolífera o advogado trabalhou 14 anos na Morais Leitão.

Licenciado em Direito em 1999 na Universidade de Lisboa, especializou-se na área da energia e trabalhou na área de fusões e aquisições. Rui Oliveira Neves viu o seu nome entrar numa outra investigação do Ministério Público, o processo sobre suspeitas de corrupção envolvendo a EDP e Manuel Pinho.

Este inquérito, aberto em 2012, avançou com uma acusação centrada apenas na relação entre Pinho e o Grupo Espírito Santo, sem levar a julgamento as suspeitas originais ligadas a um alegado favorecimento da EDP. No capítulo “energético” deste inquérito, surge o nome de Rui Oliveira Neves, por ter sido um dos advogados que em 2007 ajudaram a EDP a propor ao Governo nova legislação sobre o sistema elétrico.

O presidente da Câmara Municipal de Sines, Nuno Mascarenhas, foi detido na sequência de buscas judiciais na autarquia. (Foto: CM Sines)

NUNO MASCARENHAS: O AUTARCA

Nascido em Sines em 1967, Nuno Mascarenhas é presidente da Câmara Municipal de Sines desde 2013, sempre eleito nas listas do Partido Socialista (PS). Foi também vereador daquela autarquia entre 1998 e 2001 e de 2005 a 2013, tendo ainda trabalhado, de 2005 a 2013, na Administração do Porto de Sines.

Licenciado em Economia, o autarca lidera politicamente um concelho que está no centro da atração de investimento externo para Portugal, já que Sines não só tem uma ampla zona industrial e logística (explorada pela Aicep Global Parques), como também pode beneficiar do acesso a novos projetos de produção de energia solar de larga escala na região do Alentejo, fornecendo eletricidade a custos competitivos para a indústria.

Recorde-se que a Aicep tem uma carteira de projetos identificados para potenciais investimentos em Sines da ordem dos 20 mil milhões de euros até 2030. Em Março Nuno Mascarenhas dizia ao Expresso que “Sines está com overbooking”, no que respeita a visitas de delegações vindas do estrangeiro para conhecer o potencial da região.

O potencial de fixação de novos trabalhadores e moradores da região e de captação de atividade económica (e os consequentes impostos) têm marcado a vida de Sines e o trabalho de Nuno Mascarenhas, que em 2016 se viu envolvido no caso “Galpgate”, por ter aceitado um convite da Galp para ir ver um jogo da seleção portuguesa de futebol ao campeonato europeu, em França. Na altura disse estar de “consciência tranquila”, justificando ter ido devido às “boas relações institucionais” com o responsável da refinaria da Galp. Em 2019 foi acusado de recebimento indevido de vantagem, tal como outros arguidos, incluindo Vítor Escária (que agora é protagonista de nova investigação do Ministério Público). O processo acabaria por não ir para julgamento, depois de os arguidos aceitarem pagar uma penalização ao Estado.

Fonte: Expresso

Compartilhar

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *