Benguela: Bairro Seta Nova “há 20 anos na escuridão”

Na província de Benguela, Angola, populares do bairro Seta Nova lidam há cerca de 20 anos com a falta energia eléctrica. A escuridão à noite gera violência e medo.

O porta-voz dos moradores do bairro Seta Nova, Herickson Agostinho, afirma que o problema da falta de energia eléctrica no bairro decorre da falta de vontade política.

“Aqui, a realidade é uma lástima. Desde 2006, lutamos sobre o programa de energia no bairro e até hoje nada se fez”, explicou.

“Nos unimos para ir ao encontro [dos responsáveis], já que eles não saem dos seus gabinetes”, disse. “Fomos reclamar os nossos direitos – que é a energia e água”, acrescentou.

Para o líder local, as promessas de electrificação do bairro são feitas em época eleitoral.

Uma professora e moradora do bairro Seta Nova, em Benguela. (DR)

“Há 20 anos na escuridão”
“Há 20 anos estamos na escuridão. Se eu bem me lembro, a primeira comissão começou a lutar em 2006. E, em 2008, houve uma promessa de electrificar o bairro a partir de 2012”, explicou.

Agostinho afirma ter posse de um documento que confirma que a partir de 2012 o bairro estaria electrificado. No próprio documento, estariam destacados os nomes de alguns engenheiros.

“Mas, até hoje, não se faz sentir. Infelizmente, essas promessas só são feitas em épocas eleitorais. Para nós, não faz sentido”‘, desabafou.

E não se trata de apagões, ou de fornecimento irregular de energia, explicam. O bairro vive mesmo há cerca de duas décadas sem nenhum abastecimento eléctrico.

Criminalidade
Uma professora do bairro, Rosa Epalanga, disse à DW que uma consequência da falta de energia elétrica é a criminalidade.

“À noite o ambiente é grave. Há criminalidade e as pessoas não podem passar. Há sempre jovens a tirar os telefones, a assaltar os moradores”, disse.

Segundo a professora, estudantes do período noturno são as principais vítimas. O que compromete os seus estudos, pois precisam sair mas cedo, ou não vão às aulas.

A moradora explica ainda que a polícia tem feito rondas, mas essas só passam nas estradas, deixando de patrulhar o interior do bairro.

Para João Silva, um moto-taxista de 64 anos, trabalhar durante à noite pode representar “um atentado à integridade física”.

“Termino as minhas atividades de táxi às 18 horas, porque a esta hora as pessoas já não se movimentam. Quem sai da escola às 21h ou 22h horas arrisca-se, porque há ladrões armados com as facas, catanas e outros objetos”, disse.

“Antes das eleições”
Já António Chimuco, morador do bairro Seta Nova há 15 anos, afirma que os postes de energia foram colocados antes das eleições gerais de Agosto.

“Antes das eleições, vieram os homens da Empresa Nacional de Distribuição de Electricidade, ENDE para meter os postes e os fios. Estão instalados, mas esperamos que sejam ligados, e até aqui nada”, conta.

“Nas eleições surgiram várias promessas […]. Elas passaram e nós já perdemos esperança. Estamos cansados de utilizar gerador, estamos a vender porque não temos dinheiro para comprar combustível diariamente”.

Joaquim Francisco lamenta pelas crianças. “Não podemos admitir que os nossos filhos vivam na escuridão. Por isso estamos a bater cabeça, para ver se o nosso governo ajuda”.

De fato, está em curso um processo de electrificação do bairro, mas não finalizado.

Na última quinta-feira (20.10), um protesto contra a falta de energia elétrica levou dezenas de moradores do Seta Nova à porta da Empresa Nacional de Distribuição Electricidade (ENDE).

Com candeeiros e outros utensílios – tais como fósforo, petróleo e outros meios – mostraram, em protesto, os meios usados para contornar os “20 anos de escuridão”.

Mesmo o arranque do projecto das fotovoltaicas em Benguela não foi suficiente para solucionar os problemas dos moradores do Seta Nova. Um projeto que visa tornar a província pioneira na implementação da energia limpa no país, com as subestações da Baía-Farta e do Biópio.

Na sexta-feira (21.10), a DW África buscou esclarecimentos da direcção da ENDE, no município do Lobito, sobre a situação. Mas não obteve resposta até o conclusão desta reportagem.

Por Daniel Vasconcelos | DW

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